O mendigo defronte ao Banco Central do Uruguai, em 1 de janeiro de 2008, terça-feira, 16:11:58.
O mendigo não pergunta que horas são, porque, para ele, o tempo já acabou - e, assim, ele tem todo o tempo do mundo. No calendário do mendigo, todo dia é de folga e os feriados são péssimos, porque as pessoas viajam e não lhe dão esmola. O mendigo na rua, o mendigo na calçada, o mendigo na praça, o mendigo invadindo o quintal, o mendigo precisa descansar. Então, o mendigo dorme, o mendigo tem como canção de ninar o vai-e-vem da cidade, o travesseiro do mendigo é o meio-fio, borrifado com essência de CO2, qualquer marquise é teto e, em meio à balbúrdia urbana, o sono do mendigo é de pedra, como o colchão em que repousa. Mendigo danado, vai ser enxotado, desgraçado, vai morrer queimado, pilantra, vai ser chutado, espezinhado, preso, solto, a ação social vai tentar levá-lo, mas ele quer a desgraça da rua, porque a ausência de tempo, de prazos, até mesmo de confortos, é uma ausência que concretiza a palavra: liberdade. Muitos homens querem mudar o mundo, ficar ricos, casar, procriar, escrever um livro, ser alguém na vida. O mendigo, reduzido ao nada, só quer o corriqueiro feitio de perambular.
(E há ainda os mendigos de amor...)