Instantâneo.

...não amanhecia tão bonito em Curitiba?


A primeira reunião do mundo foi entre Deus e Adão. Foi super-rápida, porque a mulher ainda não havia sido criada. A segunda reunião do mundo foi entre Deus, Adão e Eva. Adão — com muita dor, por causa da costela arrancada — ficou calado. Deus até tentou dizer alguma coisa, mas a mulher, recém-criada, não parava de falar. A terceira reunião do mundo foi entre Adão, Eva e a serpente. Por incrível que pareça, Eva ficou quieta. Estava espantada por ver uma serpente falando.A quarta reunião do mundo foi, novamente, entre Deus, Adão e Eva. Desta vez, Deus não deixou mais ninguém falar. Foi logo expulsando os dois do paraíso. E o motivo não foi a maçã proibida, como se diz por aí. A verdade é que Deus não aguentava mais a tagarelice da mulher. Depois disso, todas as reuniões do mundo foram eternamente condenadas a durar sempre mais do que o necessário.

Zilda Arns é para sempre. Não é para agora ou para ontem, nem mesmo para amanhã - apesar de ter garantido o amanhã de milhares de crianças. A questão é simples — simples como a multimistura e o soro caseiro: por tudo que fez, Zilda Arns ultrapassa qualquer recorte de tempo e está instalada na eternidade. Onde houver crianças sendo salvas da morte pelo trabalho da Pastoral, lá estará Zilda Arns.
Para o Natal, para o Ano Novo, para a vida toda, continuam valendo as palavras de Vinicius de Moraes, em seu Poema de Natal - que, aparentemente (mas apenas aparentemente) triste, é a melhor tradução de todo sentimento:
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

eu estou por aí, divertido, deplorável, espalhado, obscurecido, luminoso, estrambótico, superior, humilhado, estou por aí em qualquer canto, distribuído pelos ralos e pelas pias, pelos pios dos passarinhos às 4 da manhã, estou encravado numa unha de dedão de pé sujo, eu fujo e reapareço, estupefaciente, barbitúrico, benemérito, perdido, eu estou perdido, estou cheio de opiniões, cheio de dedos, sou todo ouvidos, pernas pra que te quero, meus ombros suportam o mundo, eu sou um livro que eu gostaria de ser, uma música que eu mesmo canto, eu sou um pedaço de havaianas sem tiras, um trapo de roupa atirado no chão de um mocó, eu sou uma caneta-tinteiro meio sem função hoje em dia, eu sou as letras que se deletam e vão pra um limbo qualquer, eu sou um dia de sol, também sou um dia cinza, também sou um dia de chuva, também sou um dia de festa, uma noite de festa, uma festa à qual todos querem ir, um show cancelado, uma equação de vestibular, eu estou e eu sou e eu vivo aqui e e eu vivo assim, azul de curiosidades, branco de paciências, amarelo como um céu de pôr do sol.

As séries de tv estão com desconto progressivo! É o que me diz o e-mail que vem de um site de compras. Eles sabem que gosto de comprar — tanto que já comprei algumas vezes com eles — e, por isso, vivem a me mandar ofertas imperdíveis! Como é que posso viver sem as séries de tv?! Ainda mais com desconto progressivo! Ou ainda menos, já que desconto significa algo a menos. Querem me vender tudo. Querem que eu creia que preciso de tudo para viver. Ano passado, quando mudei de apartamento, o pedreiro que estava fazendo a reforma se surpreendeu com a quantidade de coisas da minha mudança. E disse, em sotaque chileno, porque ele é do Chile: "séroberto, no se puede acumular tantas coissas!" De lá pra cá, acumulei mais algumas. É certo que me desfiz de muitas, mas outras surgiram (não exatamente surgiram; eu as comprei) para substituí-las. Até mesmo as coisas imateriais, como, por exemplo, a música: eu preciso ter mais de 100 gigabytes de música no meu computador? Quase 30 mil arquivos. 30 mil faixas! Se eu começasse agora a ouvir todas, quando será que terminaria? Daqui a um ano? Sem comer, sem dormir, sem trabalhar, sem fazer nada além de ouvir uma por uma, sucessivamente, até ter ouvido todas. Seria preciso despender muito tempo. Muito, não. Seria preciso despender todo o tempo. E quanto tempo resta? Desse tempo que resta, quanto eu perco diariamente com atividades desnecessárias, com pensamentos imprestáveis e sentimentos inúteis? Se fosse possível poupar esse tempo perdido, o que eu poderia fazer com ele? Escrever mais? O que falta escrever? Há mesmo tantas ideias para expressar? Preciso conhecer tanta gente? Preciso crer em tantos dogmas, se apenas imaginar Deus já é algo altamente confortante? Madre Teresa de Calcutá vivia com praticamente nada, justamente baseada nessa crença em Deus. Aliás, li certa vez que ela, uma santa, muitas vezes se via confusa e questionando a existência do próprio Deus...! Que força, então, a teria movido a ser o que foi e a fazer o que fez? O que ela fez eu jamais vou conseguir: viver com pouco. O que não significa que eu me perturbe por não ter tudo o que desejo. Mas, sinceramente, seria bom não pensar que preciso de tantas coisas. Seria bom ter menos impulsos lascivos, mais atitudes generosas, gastar menos, viver de um modo mais simples. Seria bom, também, aprender a escrever mais resumidamente. Porque a mina de palavras um dia pode se esgotar.
manhãs de sol arrogante
eretas se levantem estupefacientes
na barbitúrica claridade
de uma primavera que chegou
mas ainda não veio muito bem
uma primavera quase-vindo
na luz de uma procissão
de nuvens que saem da frente
abrindo caminho para que chegue ele mesmo:
o sol!
ó sol
vamos logo
já cansei desse cinza todo.