Ofício.

Texto, quando dorme, acorda melhor. É que nem massa de pão: deixa na quietude, que o fermento faz crescer. A diferença é que o fermento do texto vai crescer nos olhos de quem escreve - e volta com outra forma de ver, após a pausa. E então desbasta e destoca e lapida e retoca, para cerzir a colcha do texto com os retalhos das palavras.

Tempo de absoluta depuração.

Não sou perfeito, até gostaria de ser, desde que todo mundo também fosse. Porque, se apenas eu fosse perfeito, imagine o inferno que a minha vida seria. A perfeição só teria sentido se eu vivesse num mundo ideal. Mas esse mundo não existe. Da minha parte, tenho tentado ser alguém melhor, controlar impaciências, restringir ansiedades, evitar iras, reconhecer meus erros e aprender com eles. Mas não é fácil. Confesso que, às vezes, dá vontade de parar de conviver com pessoas. É tão bom ficar sozinho na minha casa! Agora, mesmo, acabo de ver novela, enrolado num edredon, deitado no sofá e com o aquecedor ligado, porque está fazendo 10 graus nesta cidade de Curitiba, que eu tanto amo. Mas, é triste constatar, esta cidade anda cada vez mais difícil. No trânsito, quase ninguém entende que não está só. Basta dar uma pequena volta e logo se vê a multiplicação dos carros estacionados em fila dupla ou sobre as calçadas e locais proibidos; de motoristas que se acham cheios de razão e andam acima da velocidade máxima e avançam sobre a faixa de pedrestes; de ciclistas que se consideram os bons selvagens, mas não respeitam sinal vermelho, trafegam na contramão e por cima das calçadas, nem aí pra quem anda a pé. Outro dia, uma fiscalização municipal fechou um bar que tinha música muito alta, mas os frequentadores se disseram aviltados, porque o local é cultural. Que cultura é essa, que não respeita o direito alheio? É a cultura do mundo de hoje, a cultura do individualismo. Ou melhor, do egoísmo. E do egocentrismo. Aquilo de que eu gosto passa a ser lei, a minha opinião é a única que vale, eu sou democrático desde que todos concordem comigo e com minhas preferências e vontades. O mal do mundo é o egoísmo, essa é a verdade. É ele que gera a intolerância, o desrespeito, as grosserias, o maldito bullying e todas as manifestações do que há de pior na raça humana. Há algum alento perdido, é verdade, mas não há exatamente amargura. Há a intenção de manifestar aquilo de que eu gosto. Gosto de gente verdadeira, de gente gentil, que respeita opiniões diferentes, que reconhece valores alheios, que sabe criticar sem ofender. Gosto também de gente capaz de manter o bom humor mesmo diante de situações difíceis, bem como admiro quem permanece sereno em meio a tempestades de problemas ou tumultos, tão comuns na vida. Gosto de gente que sabe escutar e de gente que enxerga os outros! Que reconhece a existência de quem está próximo (ou mesmo distante) e entende o valor de cada um. Gosto, enfim, de gente rara. E gente rara é cada vez mais rara.

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Vídeo retirado do You Tube.

Nós que aqui estamos.

Rua_riachuelo

Rua Riachuelo, Curitiba, ‎quarta-feira, ‎28‎ de ‎maio‎ de ‎2008, ‏‎12:57:38.

 

nós que aqui estamos
aqui estamos por ora
aqui estamos por fora
aqui estamos errando (andando a esmo)
aqui estamos errando (não acertando).
nós que aqui estamos
aqui estamos por acaso
no fundo
no fundo
estamos no raso.
nós que aqui estamos
aqui estamos pensando
enquanto a vida está nos dispensando.
nós que aqui estamos
aqui estamos parados
aqui estacionados
em algum ponto entre
o ser e o não ser.
nós que aqui estamos
num caldo de rancores
não passamos de meros esperadores
de um dia que virá (e dia não será mais).

Deus nunca tem folga.

Eu duvido que Deus durma! Porque, quando um lado do mundo está dormindo, o outro está acordado. Ou seja, Deus nunca tem folga. Nesse caso, Ele deve ter muita hora-extra para receber. Sem falar em adicional noturno! Ainda bem que Deus é o patrão de si mesmo, senão estaria falido de tanto pagar direito trabalhista. Bom, o fato é que, se Deus não dorme, a vantagem é que nunca estamos desguarnecidos. Então, Deus, por favor, fique de olho grudado em nós, principalmente toda vez que escurecer. Chama teu Filho e a Mãe dele pra ajudar, porque em equipe fica mais fácil monitorar tudo. Porque a noite e a madrugada são períodos complicados para nós, que aqui estamos neste mundo. Sem mais para o momento, subscrevo-me, desde já imensamente agradecido! José.

O mendigo.

Mendigo

O mendigo defronte ao Banco Central do Uruguai, em 1‎ de ‎janeiro‎ de ‎2008, ‎terça-feira, ‏‎16:11:58.

O mendigo não pergunta que horas são, porque, para ele, o tempo já acabou - e, assim, ele tem todo o tempo do mundo. No calendário do mendigo, todo dia é de folga e os feriados são péssimos, porque as pessoas viajam e não lhe dão esmola. O mendigo na rua, o mendigo na calçada, o mendigo na praça, o mendigo invadindo o quintal, o mendigo precisa descansar. Então, o mendigo dorme, o mendigo tem como canção de ninar o vai-e-vem da cidade, o travesseiro do mendigo é o meio-fio, borrifado com essência de CO2, qualquer marquise é teto e, em meio à balbúrdia urbana, o sono do mendigo é de pedra, como o colchão em que repousa. Mendigo danado, vai ser enxotado, desgraçado, vai morrer queimado, pilantra, vai ser chutado, espezinhado, preso, solto, a ação social vai tentar levá-lo, mas ele quer a desgraça da rua, porque a ausência de tempo, de prazos, até mesmo de confortos, é uma ausência que concretiza a palavra: liberdade. Muitos homens querem mudar o mundo, ficar ricos, casar, procriar, escrever um livro, ser alguém na vida. O mendigo, reduzido ao nada, só quer o corriqueiro feitio de perambular.

(E ainda os mendigos de amor...)

a gana de juntar palavras.

também chove em katmandu. mas aqui estamos em situação melhor, porque lá um avião desapareceu com 15 pessoas a bordo – e aqui tudo que sumiu no momento foi somente o ânimo para as coisas cotidianas. escrever seria um ato cotidiano? já o foi, num passado não muito distante. eu poderia intentar reaver a gana de juntar palavras. mas tudo que consigo é sentir vergonha do que escrevo – e o que escrevo é comparável aos escombros de um avião caído. realmente, eu não sou mais o me smo – para o bem e para o mal.

 

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A mão que muda o mundo.

 

A mão que muda o mundo é a mão de escrever poesia, de fazer carinho, esmurrar, arrastar móveis, masturbar-se, lavar o corpo, tocar piano, a nossa mão de ligar cabos usb, pegar livros na prateleira, preparar alimentos, acolher os recém-nascidos, enterrar os mortos; o que muda o mundo é a nossa mão, também a mesma mão cujos dedos apertam os botões da urna eletrônica. E, a depender da inteligência e da escolha de cada um, a mão que aperta os botões da urna pode, diretamente, mudar o mundo. Mas a mão que aperta o botão da urna eletrônica, para melhorar o mundo, precisa estar grudada a um corpo que seja acompanhado também de uma cabeça que contenha, em sua caixa craniana, um cérebro que saiba reagir, instigado pelas coisas erradas, e sabedor de que deve acionar a voz para que reclame e gere a indignação necessária para que se construa um eixo melhor, em torno do qual as coisas possam girar de uma maneira mais justa. Mas é preciso reagir. Porque ficar calado, porque fugir das responsabilidades – isso não muda nada.

A palavra cousa.

A palavra cousa é a mais bela, a palavra-amarela, da cor da remela, a palavra-caca, ocre, críptica, sibilina, horrenda como a unha arrancada, rota como a farda rasgada, a palavra cousa, rouca, a palavra das velhas garagens cheias de trastes, a palavra dos calendários pintados em panos de pratos, a imprestável palavra, porém coesa, esta palavra cousa, loura, mouca, essa chusma maluca chamada a palavra cousa, sobre a qual se escreve o que se quiser, quando se preferir, da forma como lhe convier: é a palavra cousa, sim, é ela, a palavra da angústia dos engravatados numa tarde de verão.